Você sabe quem é “o filho do pintor que colocou um cavalo dentro de casa”, no Ipiranga

Você sabe quem é “o filho do pintor que colocou um cavalo dentro de casa”, no Ipiranga

Se você está com 60 para menos, provavelmente nunca ouviu falar dele. Nem do pai dele.
É um retrato em preto e branco suspenso na parede, ou digitalizado no celular, e talvez doa.
Era fim dos anos de 1950, os bondes circulavam eletricamente apinhados de trabalhadores pelo Ipiranga, ruas Bom Pastor e Silva Bueno, o leiteiro trazia leite à porta dos ipiranguistas e o hoje elegante bosque atrás do Museu do Ipiranga, com pista de cooper, chamava-se mesmo Matão.


E o Matão reunia toda a fauna equina do bairro, para descanso e alimentação.Vamos combinar que naquele momento os cavalinhos formavam parte da força de trabalho na região, puxando tantas carroças (já haviam puxado muitos “bonds”).
Muitos deles, depois de anos e anos de trabalhos forçados, a cacunda abaulada de carga, eram abandonados por seus patrões à própria sorte e circulavam por aí de déu em déu, tristemente.
Giovanni Oppido, o pai (pronuncia-se óppido, com sílaba tônica no primeiro O), descendente italiano, amava pintar temas rurais, com predileção por cavalos. Daí a levar um cavalo para dentro de casa, para dentro do ateliê, era só um relinchar.
Certa feita, chamou o filho e o orientou a alertar sobre a possível aparição de um desgarrado equino, e assim se fez.
Mas acontece que o cavalo branco, maltratado pela vida laboriosa e abandono, entalou no vão entre a sala e a cozinha –e não saía nem entrava.


Juntou gente, muita gente. “Tinham levado um cavalo pra dentro de casa e ele entalara!”, a boa-nova correu as ruas de terra, os ouvidos novidadeiros.
E aquele modelo-vivo, assustado, foi só mesmo libertado pela sagacidade de um vizinho, que arrumou uma focinheira e contornou o caso.
A dose cavalar de espanto marcou para sempre a história do bairro, daquela casa da rua Xavier de Almeida, 544, e sobretudo a história do filho.

 

Marcos Aurélio Oppido, o Gal @galloppido, é o menino com a bola na mão da fotografia que abre esta reportagem, então com 7 anos e na rua de casa, em 1959. O filho de Giovanni está agora prestes a completar 70 anos, nascido a 14 de março de 1952 no então Hospital Leão XIII (hoje Hospital São Camilo). É um ipiranguista da gema, portanto.
Estudou no colégio público Alexandre de Gusmão, nos dois endereços dele, ruas Bom Pastor e Cisplatina, e ali iniciou sua trajetória musical. “Ladies and gentlemen, D’Bicols!”
Com Gal na bateria, colegas de escola e a presença de Irineu Gasparetto (guitarra-base), filho da líder espírita Zíbia Gasparetto, os D’Bicols (nome que funde bicões de festas com The Beatles, inspiração primeira) faziam um iê-iê-iê juvenil que animava festinhas e formaturas ipiranguistas. Sua despedida foi com um show no colégio São Francisco Xavier, em 1969, para uma formatura.
Gal Oppido galopou mais tarde por outros Matões. Era 1974, um ano divisor: ele se mudaria então do Ipiranga e participaria da formação de um dos grandes ícones da história da música em São Paulo, o grupo Rumo.
O berço foi o mítico Lira Paulistana, no bairro de Pinheiros, espaço cultural de apresentação e convívio que também projetou outros nomes, como Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé e Premeditando o Breque.
Formada por universitários sobretudo da USP, o Rumo propunha renovações estéticas. Gal, então estudante de arquitetura na USP, era o baterista. O cavalão branco ipiranguista, quem diria, era agora a Vanguarda Paulista!
O Rumo somava criatividade, humor, preocupação social e urbana e pariu “Ladeira da Memória” e “Delírio, meu!”, entre outros sucessos com a afinação de Ná Ozzetti, sua vocalista.
Gal também se aventuraria pela fotografia de arte (seria festejado e premiado), pela performance e pela educação, como professor. Não voltaria a morar no Ipiranga, mas regressaria de quando em quando, ora para uma oficina, ora para um cheese-salada sabor juventude no Seu Osvaldo e uma espiada no sobrado de sua infância, que continua de pé, hoje pintado de preto, junto agora de um elegante arranha-céu.
“O Ipiranga sempre será o meu lugar”, declama.

Nesta terça-feira (25), Gal estará de volta, como o bom filho que à casa retorna. Junto da trupe do grupo Rumo, para revisitar clássicos do passado e mostrar novas canções em show no @sescipiranga, às 21h. Os ingressos estão esgotados.
Gal promete não levar nenhum cavalo branco para o palco, mas vai que Seu Giovanni baixa por ali…

 

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