Gente, a Capela do Cristo Operário, uma das mais belas joias do Ipiranga, está sendo restaurada!
Desde o fim de abril, uma equipe da empresa especializada Tapera vem executando obras de recuperação e restauro do conjunto da capela, que é um bem tombado pelo patrimônio histórico e artístico estadual e municipal desde 2004. As obras devem se encerrar em setembro e a perspectiva é de que reabra para a gente, humilde e acolhedora, em outubro.
Com isso, os painéis murais pintados pelo artista Alfredo Volpi (1896-1988), localizados no altar da pequena igreja, assim como os vitrais construídos por ele e outros detalhes e objetos de outros artistas, como Geraldo de Barros (1923-1998) e Yolanda Mohalyi (1909-1978), integrantes do local, estão sendo restaurados e protegidos.
TDC financia reforma
O custo total (somados projeto e execução) é de R$ 1 milhão. O chamado conjunto da Vergueiro (a capela mais seis outras edificações), no número 7.290 da rua Vergueiro, pertence à ordem religiosa dominicana. O valor do restauro está sendo pago via mecanismo da TDC (Transferência do Direito de Construir), que também favorece a conservação e manutenção de bens tombados.
Funciona assim: o terreno da capela alcança 7 mil m2. Calculou-se então o que poderia ser ali construído, caso não houvesse a restrição por causa do tombamento do imóvel. Esse valor então é captado, no caso da capela, via Conpresp (órgão municipal responsável por proteger o patrimônio paulistano), e destinado à recuperação do bem tombado, sem custos para o proprietário.

Emoção diante da beleza e da história
Visitamos a capela e conhecemos o trabalho em detalhes, conduzido sob a orientação geral de Mariana Falqueiro, a arquiteta responsável.
Impactante sobre a alma da gente a observação dos três painéis de Volpi, com suas figuras angulosas características e elementos mínimos em cena. À esquerda do altar, “Sagrada Família”, com o jovem Jesus, o carpinteiro José e a mãe Maria em cena, formando um triângulo. Ao centro, o “Cristo Operário”, de abraços bem abertos, ladeado, à esquerda, pela silhueta de uma igreja, e à direita, pelo perfil de uma fábrica. À direita, “Santo Antônio pregando aos peixes”. Impossível não comparar os animais aquáticos às bandeirinhas de festa de São João, famosas na obra de Volpi por toda a vida.
O restauro retoma e retifica a restauração de 2006 do conjunto da capela. Agora, trata-se mais de um restauro conservativo, explica Mariana Fulqueiro, para “tratar de algumas patologias vinculadas à manutenção e conservação” do imóvel.
Trata-se, diz, de um trabalho “muito mais preventivo” e também de melhorias de pontos que não foram satisfatórios no restauro anterior. Um desses pontos é o de infiltração de águas da chuva.

Infiltrações pedem intervenção
Chegou, inclusive, a escorrer água sobre os murais de Volpi, comprometimento sanado agora pela equipe de objetos artísticos mediante limpeza mecânica seguida de pintura, com seus pincéis precisos com tinta têmpera (à base de pigmentos de terra e gema de ovo). Cada mancha foi suavizada com a intervenção conforme a cor do conjunto ao qual pertence.
Contra as infiltrações, todo o telhado da capela foi refeito, assim como substituídas as calhas e rufos. Isso, da infiltração descendente. Da parte ascendente, da umidade que vem do solo, houve impermeabilizações capazes de proteger a largura espessa das paredes (aplicação de resina) e o reposicionamento da queda das calhas para dentro de uma caixa coletora sob o piso, isto é, embutido. Antes as calhas derramavam abertamente a água recolhida sobre os ralos, permitindo que boa parte do fluxo vertesse diretamente no piso e umedecesse as paredes externas.

Iluminação destaca capela
Agora, as celebrações na pequena nave da capela ganharam nova iluminação, seguindo demanda apresentada pela comunidade local, consultada. Os perfis de LED agora são paralelos à posição dos bancos, dando maior luminosidade.
Do lado de fora, o conjunto da capela também ganhou iluminação especial, de modo a destacá-la na paisagem. São agora 17 spots externos.
Do lado da segurança, toda a fiação elétrica da capela foi substituída e o local ganhou uma caixa de luz própria, individualizada.
Também para fazer a capela sobressair, duas figueiras localizadas diante do templo mudaram de lugar, replantadas no próprio terreno.
Com isso, os restauradores aproximam a construção do modo que estava nos anos históricos de 1950 e 1960, como parte do projeto da Unilabor, a indústria de móveis que funcionava junto da capela e na qual não havia nem patrões nem empregados, mas só colaboradores, na autogestão horizontal (leia mais sobre a Unilabor no próximo texto). A capela ocupou as instalações de um armazém da fábrica.

É preciso cuidar do nosso jardim
Outra intervenção importante foi nos caminhos que conduzem à capela através do jardim, projetado por Roberto Burle-Marx. Os pisos de pedra foram removidos e assim se procedeu ao renivelamento do caminho, com o aproveitamento das mesmas pedras.
Mais um ponto fundamental do projeto atual é a aprovação de um plano de conservação preventivo daqui por diante. Significa que os profissionais especializados da Tapera estarão periodicamente intervindo nas instalações do conjunto do Cristo Operário, de modo a antecipar ou corrigir problemas assim que eles surgirem. Esse plano preventivo terá a duração inicial de cinco anos.
Esse novo trabalho se inicia assim que a obra no conjunto da Capela do Cristo Operário se encerrar, e ela entrou agora na “fase de acabamentos”. Está perto do fim.
E assim em breve a gente vai poder entrar ali e admirar aquela “pequena pinacoteca”, um lugar pequenino e sagrado com grandes obras de arte, orgulho e glória da nossa região. E fazer uma oração mesmo que pagã.
“É uma joia rara”, define bem a arquiteta Mariana.
Que alegria!
A Unilabor e o sonho cristão de justiça social
A Capela do Cristo Operário fazia parte de um projeto socialista idealizado pelo frei dominicano João Baptista Pereira dos Santos (1913-1985), inspirado no movimento Economia e Humanismo, criado por outro religioso dominicano, o padre francês Louis-Joseph Lebret (1897-1966).
O movimento pregava a participação direta da Igreja nas questões econômicas, de forma a eliminar as desigualdades sociais existentes. Como o artista, o religioso tinha de ir aonde o povo necessitado estava.
O projeto solidário do frei João Baptista compreendia a comunidade operária da Vila Brasílio Machado, organizada em torno do Círculo Operário do Ipiranga, e o lançamento de uma fábrica original.
Em parceria com o pintor e designer Geraldo de Barros (1923-1998), criou-se ali, no início da década de 1950, a Unilabor, uma fábrica de móveis marcada pelo sistema de autogestão (sem hierarquias, sem patrões) e compartilhamento igualitário de responsabilidades e resultados.
Os móveis (cadeiras, bancos, estantes) eram desenhados por Geraldo de Barros e se tornaram objeto de desejo da classe média alta de São Paulo, a principal clientela.

Dessa forma, a comunidade operária trabalhava na Unilabor e comungava na Capela do Cristo Operário, que servira inicialmente de armazém e então se constituiu de obras de um time de estrelas da arte, como Alfredo Volpi, Yolanda Mohalyi, Moussia Pinto Alves e Elisabeth Nobiling.
Era o trabalho compartilhado igualmente, aliado ao culto do espírito, sob a inspiração de um Cristo que era muito mais um igual, um irmão mais velho, um protetor dessa gente, parte integrante e atuante dessa comunidade.
Esse sonho socialista cristão viria a se encerrar em 1967, segundo estudiosos, por problemas financeiros e de organização interna. Mas sonhos não envelhecem nem morrem e a capela segue viva como inspiração. Vive o Cristo Operário.

Ficha Técnica
TAPERA ARQUITETURA – PROJETO E EXECUÇÃO
Mariana Falqueiro – Arquiteta Responsável
Danielle Dias – Arquiteta
Gabriela Barros – Arquiteta Residente
ENGENHARIA DE SEGURANÇA
Alex da Silva Pereira – Engenheiro de Segurança
NJ RESTAURAÇÃO E CONSTRUÇÃO
Joalison Jesus Almeida – Engenheiro Civil
Nailton André de Almeida – Construtor
Senival Silveira de Jesus – Mestre de Obra
Jonatha Silveira de Jesus, Lenildo José da Silva, Fernando Souza Filho e Vinícios Vieira da Silva Santos – Auxiliares de Serviços Gerais
João Lopes da Silva Neto – Pedreiro
CG CONSTRUÇÕES E INSTALAÇÕES – PINTURA GALPÕES E ELÉTRICA
Carlos Antônio Gomes da Silva – Engenheiro Civil
Eronildo Gomes da Silva e Geraldo Marcelino da Silva – Pintores
Carlos Roberto Gomes da Silva – Engenheiro Elétrico
Joabe Ribeiro Telles – Eletricista
José Carlos Batista dos Santos – Auxiliar de Eletricista
Marcio Daniel Prates – Eletricista
Rodrigo Batista da Conceição – Pintor
Vilmario de Santana Pereira – Pedreiro
NN RESTAURAÇÃO E PINTURA
Katia Basei de Ataides, Silvaneide Silveira de Jesus e Valdiney Santos Nascimento – Restauradores
Marcelo Sancho Rios Xavier – Visitante
PRO AMBIENTE – PAISAGISMO
Edilene Quinones Brunoro – Paisagista
José Sousa da Silva, Renilson Bastos dos Santos, Diego Bastos dos Santos, Romário Magalhães de Matos, Ademir Santos, Agnaldo dos Santos Matos, Alailson Carvalho Leite, Diego Silvino dos Santos, Alicio Santos de Sousa e Dogival Souza de Carvalho – Jardineiros
Manuel Zildo Alves de Souza – Operador de motosserra
Gerci Souza Pereira – Auxiliar de operador de motosserra
CARPINTARIA – TELHADO
Jordalino Ferreira Lisboa – Carpinteiro
Jair Ferreira Lisboa e José Rodrigues de Souza – Auxiliares de Carpinteiro
GESSO
Felipe Carvalho Gesseiro, Leandro Genesio dos Santos, Jonas Oliveira de Matos e Sebastião Rodrigues Soares – Gesseiros
PINTURA CAPELA
Selmar Xavier Batista, Alessandro Silva de Santos, Dalmir Franco Cavalcante, Paulo Ricardo Souza de Guimarães e Antônio Carlos Oliveira Machado – Pintores
Jeferson Borges Souza, Llington Gomes dos Santos, Renato Daniel Aparecido Maroni e Alex Esmeraldo Santos Silva – Limpeza Muro
RUFÃO – CALHAS E RUFOS
Flavio Michel Doroani – Responsável
Gustavo Moreira de Souza, Derick Moreira – Auxiliares de Instalador de Calhas
SERRALHERIA
Aparecido Roberto Pereira da Silva, Leonildo Honorato de Almeida – Serralheiros
RESTAURAÇÃO DE BENS INTEGRADOS E VITRAIS
Fernando José R. Santos – Restaurador
RESTAURAÇÃO DE MOBILIÁRIO
Daniel Robaina Linera – Restaurador Mobiliário
MARCENARIA – PORTAS
Luis Picketti – Marceneiro